Tem sido cada vez mais usual para as pessoas a utilização do crédito nas diversas modalidades de gastos. Nesse caso, conjuntura econômica, necessidades e desejos caminham juntos num cenário em que o crédito serve de ponte para a materialização dos interesses – sejam os gastos feitos conforme planejamento, ou por impulso e carência.
Os dados do Banco Central sobre as operações de crédito das pessoas físicas mostram que o saldo de janeiro deste ano ultrapassou a casa dos R$ 4 trilhões, comparativamente pouco mais de 40% do PIB. Em janeiro de 2024, o total equivalia a R$ 3,561 trilhões.
A diferença corresponde ao crescimento de 12,7%, com R$ 440 bilhões a mais irrigando a economia nos treze meses do intervalo, em um movimento que pode ser visto sendo pró-cíclico para empresas e mercado. Ao mesmo tempo em que os efeitos são benéficos, como maior faturamento das empresas, empregos, negócios e satisfação dos consumidores, em outra direção há o aumento do endividamento social.
Há levantamentos que estimam 57 milhões de brasileiros de alguma forma com dívidas, atrasos no pagamento, compra no crediário, parcelamento do cartão, etc. Número bastante expressivo para uma população estimada de 216,4 milhões; e de 100 milhões, se forem consideradas apenas pessoas com 14 anos ou mais e ocupadas.
Com tanta gente acessando o crédito, a demanda por recursos eleva a taxa de juros, assim como a Selic também. De acordo com o Banco Central, a taxa média de juros das operações de crédito com recursos livres para as pessoas físicas partiu de 52,25% ao ano em janeiro de 2024 para 53,91% ao ano em 2025. Ao mês foram 3,7% de juros na média. Essas taxas são altas porque os juros praticados pelo mercado sofrem influência da Selic, da inadimplência, dos riscos e do spread, entre muitos fatores.
Em relação ao cheque especial, por exemplo, a pessoa que se financia por meio deste recurso pagou em média 125,76% ao ano em janeiro de 2024. Neste ano, também no primeiro mês, a cobrança estava em 135,10% ao ano. Em termos de juros reais anuais, para uma inflação pouco acima de 5%, este valor corresponderia a 130% ao ano.
No cartão de crédito, a situação parece inverossímil. No rotativo, a média estava em 445,64% ao ano em janeiro de 2025; e 175,04% ao ano no cartão parcelado. Enquanto uma dívida mais do que dobra nesta última modalidade, as compras no rotativo são encarecidas mais do que cinco vezes.
A sociedade tem acordado para o tema do desequilíbrio financeiro, abordando soluções por meio da educação financeira como ferramenta para mitigar o endividamento e inculcando nas pessoas a importância do equilíbrio nas finanças pessoais.
Além do foco na organização do orçamento pessoal ou familiar, estão presentes no processo de educação a mudança de hábitos e preferências, com novas experiências na renúncia ou no adiamento de gastos com o planejamento. Na prática, isso acontece graças ao conjunto de estímulos e ações para que o nível de endividamento não se repita ou seja adequado à capacidade financeira.
Assim, é possível desmistificar o cartão e outros mecanismos de crédito como vilões na vida financeira das pessoas. Sendo as taxas de juros inibidoras no Brasil, a resolução do problema perpassa pela maneira como as pessoas fazem uso das possibilidades de crédito.
O processo da educação das finanças poderá levar tempo para que as pessoas se acostumem com novas condições dentro da realidade orçamentária, sem grandes excessos que se tornem dívidas preocupantes. Esta poderia ser uma prerrogativa necessária a fim de que as pessoas possam modificar suas vidas com viés nas oportunidades que o mercado de capitais oferece, com inúmeros produtos e boa rentabilidade das aplicações.