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O comércio é a alma do Centro do Rio

A história econômica do Brasil se confunde com o desenvolvimento do comércio no Centro do Rio de Janeiro. Desde os primórdios da colonização até os dias de hoje, a evolução da atividade mercantil moldou a identidade, a arquitetura e a dinâmica social da cidade.

Ainda nos anos 1500, a antiga Rua Direita (atual Primeiro de Março) consolidou-se como a principal via, abrigando os pioneiros armazéns de secos e molhados.

O dinamismo dos negócios impulsionou o fluxo marítimo na Praça XV, transformando-a no maior polo administrativo e financeiro do Brasil Colônia. Mais tarde, a chegada da Família Real (1808) acelerou a modernização, trazendo refinamento a pontos emblemáticos, como a Rua do Ouvidor.

Entre o século 19 e o início do século 20, o Centro do Rio acolheu fluxos migratórios. Judeus, portugueses, sírios e libaneses encontraram aqui refúgio e oportunidade para desenvolver seus talentos naturais de comerciantes.

Com o tempo e o desenvolvimento local, a força empreendedora deu origem, em 1932, ao SindilojasRio (Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio de Janeiro) — pioneiro e mais antigo sindicato empresarial de representantes do setor no país.

Décadas depois, em 1955, um grupo de comerciantes fundou o CDLRio (Clube dos Diretores Lojistas do Rio de Janeiro), um dos exemplos bem-sucedidos entre as entidades de classe, que deu origem ao cedelismo no Brasil e fundou o SPC — Serviços de Proteção ao Crédito, que revolucionou o sistema de crediário no país e mudou completamente o relacionamento do consumidor com o lojista.

Nos anos 1960, a união de lojistas fundou a Saara (Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega) — um dos maiores e mais diversificados shoppings a céu aberto do país.

Mais à frente, o coração comercial da cidade passou a sofrer com o esvaziamento progressivo, agravado pela violência urbana, fuga de grandes corporações, problemas fiscais do Estado e pela severa recessão de 2015-2016.

Já a pandemia (2020-2023) atingiu fortemente o setor, por meio do desemprego e do avanço do trabalho remoto, diminuindo o volume de pessoas e trabalhadores em circulação, esvaziando calçadas e resultando no fechamento de inúmeros estabelecimentos tradicionais.

Se o comércio é a alma do Centro, sua revitalização é o caminho para devolver a vida à região. Isso demandará medidas de estímulo ao consumo presencial e a implantação de ações integradas de segurança pública para reduzir roubos e violência, visando promover tranquilidade a trabalhadores, clientes e turistas.

Com foco no engrandecimento do comércio local, é imperioso sensibilizar as autoridades. Para isso, o Rio precisa atrair novos investidores e moradores por meio de incentivos, como redução do IPTU, subsídios para locação, linhas de crédito facilitadas e desburocratização para a abertura de lojas.

Além disso, torna-se urgente o combate permanente ao comércio informal e desordenado, que promove o caos e a concorrência desleal, enfraquecendo o comerciante — aquele que honra com os impostos e gera empregos formais —, induzindo o crescimento da economia.

Por fim, estamos convictos de que a expansão da diversidade comercial e o fortalecimento dos polos de consumo constituem elementos essenciais para atrair novos investimentos e melhorar a qualidade de vida da população.

O comércio do Centro não pertence apenas ao passado do Rio de Janeiro; ele é o indutor das transformações que o presente exige para que a cidade reassuma a grandeza socioeconômica e cultural e o seu protagonismo histórico na formação deste país.

Aldo Gonçalves é presidente do CDLRio e do SindilojasRio.